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Viajar: traduzir o mundo

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“3, 2, 1... Bum! Pronto, leitor, acertei meu relógio.”

Para mim, uma das melhores coisas de viajar é poder traduzir o mundo. Os símbolos de um país, por exemplo, nos dizem muito mais do que somos capazes de perceber à primeira vista. Imagine o quanto se pode aprender sobre a cultura de um lugar ao visitar um de seus castelos, ou encomendar um traje ainda em uso depois de 500 anos.

Assim que entrei para a comunidade escocesa de São Paulo, assumi um dos mais importantes compromissos que se pode esperar de um novo membro: encomendar um kilt e registrá-lo no The Scottish Register of Tartans.

Muito mais que um saiote de lã quadriculado, um kilt é um símbolo definidor de cultura, e de família. Originalmente, nas terras altas, há centenas de anos, cada padrão quadriculado (ou tartã) indicava a que grupo de origem familiar você pertencia. Seguindo essa tradição, escolher um kilt hoje é, na prática, escolher um tartã.

Há diversos tartãs: o do Celtic Football Club, o da University of Edinburgh, o da rota John Muir e etc. Cada time, escola ou grupo organizado tem seu próprio padrão quadriculado. O traje completo, do qual o kilt faz parte, inclui:

Sr. Smiles na loja Gordon Nicolson Kilt Handmade vestindo um kilt

  • jaqueta
  • colete
  • gravata (“borboleta”, se o traje for de gala)
  • camisa
  • cinto (costuma trazer um símbolo celta) e fivela
  • sporran – o “bolso” do kilt
  • garter flashes (“liga” feita no mesmo padrão do kilt)
  • meias três-quartos (kilt hose)
  • broche do kilt (kilt pin)
  • skean dhu – uma faca pequena
  • guillie brogues – sapato especialmente desenhado para se usar com o kilt


Assim que deixamos Holyroodhouse escolhi o meu, numa das mais tradicionais casas da Escócia, a Gordon Nicolson Kilt Handmade. Não me lembro de alguma vez ter estado em um estabelecimento tão aconchegante e antigo. A cor, a atmosfera, o cheiro... Tudo era marcado como que por um “sabor” amadeirado ou talvez fosse ainda a memória do dia anterior no Scotch Whisky Experience.

Seja como for, Geni, a equipe e eu deixamos a Nicolson, certos de receber nossa encomenda em São Paulo no tempo devido, e nos dirigimos para a principal atração do dia, ali pertinho.

O castelo de Edimburgo

Você já esteve em um castelo? Não vale castelo construído a menos de 500 anos. É uma experiência impressionante, em especial se for o Castelo de Edimburgo. Só de olhar para ele, a gente chega a sentir o peso das pedras que há 1.200 anos o mantém em pé.

Vista do Castelo de Edimburgo

Segunda atração turística da Escócia

Como moradia, ele era tão confortável quanto possível para uma fortaleza, ou seja, desconfortável. Por isso a Família Real sempre o preferiu.

Quem diria que ele passaria a ser visitado por um milhão de pessoas a cada ano! Ao visitá-lo, confira a Sala da Coroa: além da coroa propriamente dita, ali também estão o cetro e a espada reais (das mais antigas de toda a Europa).

Guerra e paz

Dentre as joias da coroa, não é à toa que a espada se encontre sempre ao lado do cetro: no tempo do Antigo Regime, quando reis eram considerados representantes quase divinos, cabia ao soberano dosar a paz (cetro) e a guerra (espada) em proporções que ele considerasse ideais.

Como qualquer outra nação, particularmente na Europa, a Escócia também enfrentou muitas e muitas guerras. Elas definem aquilo em que se tornaram os países que facilmente visitamos hoje. Conhecer a história desses conflitos é fundamental para entender a alma e as tradições do país onde você está. Por isso, não deixe de visitar o Museu Nacional da Guerra. Ver de perto os uniformes, armas, peças de propaganda e objetos do cotidiano nos dá uma dimensão melhor de quanto sacrifício há por trás da paz.

No topo

Estamos no topo do castelo, a poucos metros das ameias (aquela mureta recortada, no alto), quando o sargento David Beverage surge, devidamente fardado. Falta pouco para a uma hora da tarde, e cabe a ele disparar a One O’clock Gun (a “Arma da Uma Hora”, um Light Gun L118).

O canhão está em sua posição desde 1972, mas “disparar”, exatamente a uma da tarde, é uma tradição que remonta a 150 anos. Naquela época, os navios ancorados a (três quilômetros dali) acertavam seus relógios de bordo pelo disparo... Só um instante:

3, 2, 1... Bum! Pronto, leitor, acertei meu relógio.

Sargento David Beverage dispara o Light Gan L 118

Como você já deve imaginar, não há “disparo” propriamente dito. Só um estampido. Um estampido que nos prepara para nossa próxima (e última) visita em Edimburgo.

Te vejo lá!

Por: Smiles J. Exel

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